Novela para criança ou para adulto?

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Com muita fantasia e cenários coloridos, novela exibida na faixa das 18h atrai a atenção das crianças – Foto: reprodução TV

A beleza dos cenários e figurino da novela Meu Pedacinho de Chão, da Rede Globo, é inegável. A dúvida que persiste é se a trama, com seu tom de fábula e personagens curiosos, é ou não direcionada para crianças, já que a classificação indicativa da novela é 10 anos. Se não é indicada para crianças, por que usa recursos que vão atrair a atenção desse público, lembrando que sua exibição acontece às 18h? Incoerências como produções com classificação livre e conteúdo inadequado para crianças ou classificação 10 anos ou mais e histórias que atraem o público infantil são questões a serem discutidas por todos aqueles que se preocupam com a qualidade e com o direcionamento adequado dos conteúdos dos meios de comunicação. Vale lembrar que programas jornalísticos e publicidade não estão sujeitos à classificação, o que faz com que pais e mães possam ser surpreendidos com conteúdos não recomendados para crianças e adolescentes a qualquer hora do dia.

Sabemos que quanto menos tempo as crianças passarem em frente à televisão e outras telas, como computadores, melhor para elas. O que acontece com as novelas é que elas sempre prendem a atenção do telespectador para o capítulo seguinte e assim sucessivamente, ao contrário dos seriados que têm início e fim no mesmo episódio, apesar de também ‘viciarem’ o público. Pensando nos conteúdos destinados às crianças, vale lembrar de produções televisivas de outros tempos como o seriado Sítio do Pica-Pau Amarelo que atualmente tem sua última versão exibida por canais da TV por assinatura. As histórias de Monteiro Lobato, cheias de aventura e imaginação, fizeram parte da infância de muitos adultos de hoje que ainda se lembram de alguma das versões produzidas com as histórias de Dona Benta, Tia Nastácia, Visconde, Pedrinho, Narizinho, Emília e Cuca. O seriado foi produzido em 1952, na TV Tupi, ao vivo, na forma de teleteatro; na TV Cultura em 1964;  na TV Bandeirantes em 1967;  e na Rede Globo entre 1977 e 1986 e entre 2001 e 2007. Nos anos 2000, com a regravação do Sítio e a atualização da obra, com a Dona Benta usando um computador, o seriado manteve o compromisso com a história e respeito ao público infantil sem publicidade escondida na trama. Mas os intervalos comerciais já não eram mais os mesmos e o bombardeio publicitário ficava cada vez mais forte, além dos produtos licenciados da marca Sítio como mochilas, brinquedos e roupas. Exemplos mais recentes como as novelinhas Carrossel e Chiquititas mostram muito bem a pressão do consumismo sobre as crianças, inclusive com publicidade e  indução ao consumismo infantil também dentro da história.

De volta ao Meu Pedacinho de Chão, fica a dúvida: será que a emissora espera cativar o público infantil para reforçar o discurso de que precisa de anúncios voltados para as crianças para patrocinar as produções? Após a Resolução 163, do Conanda, publicada em 04 de abril de 2014, e que proíbe a publicidade infantil, as emissoras estão se preocupando mais com público infantil e agora vão correr atrás das verbas publicitárias para suas produções? Por anos, com todos os anúncios existentes, o público infantil foi perdendo a maior parte da programação direcionada a ela. Mais uma estratégia para trazer à tona o discurso de que a criança precisa ter programação especialmente dirigida a elas e que estas só serão viáveis com os anunciantes por perto? Outras estratégias que possam financiar uma programação infantil de qualidade na TV precisam ser pensadas sem que nossas crianças sejam bombardeadas com os anúncios de biscoitos e salgadinhos a cada intervalo comercial. Na verdade, muitos dos programas infantis produzidos nas últimas décadas eram vitrines para exposição de artistas, tinham muita venda de produtos, brincadeiras pouco criativas, pouco ou nenhum conteúdo educativo ou cultural e os desenhos animados importados de sempre. Os poucos programas de qualidade como Castelo Rá Tim Bum, que completa 20 anos de criação em 2014, são cada vez mais raros e costumam ser produzidos por emissoras públicas.

A publicidade dirigida às crianças é considerada abusiva, por fazer uso da falta de experiência e julgamento da criança, de acordo com o Código de Defesa do Consumidor, de 1990. A Resolução 163 do Conanda reforça a ilegalidade de tal prática. Enquanto Meu Pedacinho de Chão continua sendo exibida a gente pergunta: afinal, é para criança ou para adulto?

 

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