#FicaRádioGuaraniFM

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Sobre a autora: Kênia Fernandes é graduada em Comunicação Social pela UFMG e organizadora do Fica Rádio Guarani FM

O rádio. O suporte de comunicação mais eficiente da história dos meios agoniza. Não em sua função, mas em sua essência. Desde criança aprendi que o rádio chegava em qualquer localidade, o rádio era democrático, o rádio independente – até – de energia elétrica. O rádio foi a mais importante janela comunicacional de que o mundo tem notícia. Quando entrei na faculdade de Comunicação essa sabedoria empírica – aprendida vendo pais e avós com seus radinhos de pilha, ouvindo o jogo de futebol, a notícia, a novela, a música – foi potencializada pela teoria, pela verificação “científica” da importância do meio. Rádio é vanguarda. Rádio é proximidade. Rádio é povo. É o veículo mais rápido (por meio dele os bons jornalistas do mundo sempre se pautaram), mais desafiador (porque, sem o recurso da imagem ou da palavra escrita precisa transmitir a informação de maneira eficiente), mais completo, mais acessível, mais charmoso, mais acolhedor, mais companheiro.

Durante anos, décadas, todos esses atributos puderam ser usados a favor da comunicação e da arte. Da arte! Porque fez chegar a voz e o canto de tantos a todos os cantos possíveis. A informação e a música viajaram juntas nas ondas e no éter e foram a todos os lugares. Então, não importa se o ouvinte sabe o que é jazz, clássico, rock, blues ou bossa. Sequer importa se o ouvinte sabe ler ou escrever. Que língua fala, onde mora, se tem ou não energia elétrica. Por meio do rádio a arte pode chegar ao seu destino. Qual? O coração dos homens.

Por isso a dor imensa em se perder uma emissora de rádio que contribui enormemente para a democratização da arte. E da informação. E do acesso. Como disse lá na primeira linha de meu lamento, o rádio não agoniza em sua função. Mas em sua essência. Porque o éter agora vem sendo ocupado por grupos cada vez mais específicos, com interesses cada vez mais específicos (não há preconceito religioso aqui, afinal eu mesma professo uma religião) que limitam as infinitas possibilidades de comunicação do veículo. Que limitam sua essência de informar e entreter em larga escala. “Paratodos” (me apropriando do título da música de Chico). Sim. O rádio deve ser um veículo “Paratodos”. Quando viajamos no dial de Belo Horizonte percebemos que seu cardápio de opções cada vez mais é dirigido a um grupo. O uso de uma concessão pública para um grupo. Apenas um grupo que – mesmo volumoso – não é a totalidade da população.

A perda das emissoras de rádio como as conhecemos desnuda um novo tempo. Um novo tempo ilusório, em que podemos pensar que a WEB será capaz de substituir todos os veículos. Talvez a maior parte deles. Mas não o rádio. Essa substituição é a opção que temos, é a opção que teremos que seguir e que, espero, os profissionais da rádio Guarani sigam. Mas sabemos que a potencialidade democrática do rádio é quase infinita. E está, para sempre perdida. Só podemos lamentar.

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* A rádio gospel Feliz FM, sediada em São Paulo, a partir de 1º de maio, assumirá a frequência da atual Guarani FM, 96,5, de Belo Horizonte. A rádio Guarani, fundada em 1980, apresenta uma programação musical rara nos dias de hoje, calcada na qualidade e no respeito pelos seus ouvintes. Lamentando a perda da rádio que muito contribui para a vida cultural da capital mineira, mais de 11 mil pessoas confirmaram presença no ato simbólico e virtual do #FicaRádioGuaraniFM.

* A utilização das emissoras de rádio e TV, concessões públicas, para fins religiosos foi um dos temas discutidos entre os ouvintes da rádio no Facebook, além da necessidade de uma discussão ampla sobre a democratização da mídia no Brasil. Saiba mais sobre as ações do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, FNDC, e leia e assine o Projeto de Lei de Iniciativa Popular de Mídia Democrática.

 

Mobilização no Facebook: Fica Rádio Guarani FM e Órfãos da Rádio Guarani