Água: usos, discursos e escassez

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Pense no que você poderia salvar quando você economiza água, diz o cartaz da campanha da ONU em 2013, Ano Internacional da Água. Foto: reprodução

Sobre a autora: Ana Mansoldo é psicóloga, escritora e educadora. Autora dos livros Educação Ambiental Urbana, Educação Ambiental na Perspectiva da Ecologia Integral (Ed. Autêntica), Ipês Amarelos e Abelhas Urbanas.

Os primeiros alertas sobre a possível escassez de água doce na Terra foram considerados alarmistas e derrotistas, principalmente no Brasil, tendo em vista a imensidão de nossos rios. Mas para nossa surpresa a Comissão Pastoral da Terra, CPT, que monitora os conflitos desde 2002, registrou, em 2012, 79 conflitos por água em dezenove estados brasileiros. Em 2013 foram 104 conflitos, segundo a versão mais recente da publicação Conflitos no Campo Brasil, o que representa um conflito a cada quatro dias. São disputas para evitar a apropriação de recursos hídricos por empresas, como mineradoras e fazendas, ou para impedir a construção de barragens e açudes, ou por ações de resistência, em geral coletivas, para garantir a preservação da fonte de água. Nenhum alarmismo, apenas a realidade: nossos rios estão morrendo e a água doce escasseando-se, gerando conflitos social, político, econômico e cultural.

De fato há muita injustiça social na distribuição do uso da água, uma desmedida violência contra a natureza e a generalizada falta de consciência do poder público e do cidadão. Setenta por cento das águas são consumidas pela agricultura; grande parte se perde nos métodos anacrônicos de irrigação, e outra é envenenada com agrotóxicos. A indústria geradora de energia hidrelétrica desvia rios, desaloja comunidades, inunda terras produtivas, neste país repleto de alternativas, como por exemplo, a energia solar. Ao consumo diário da população restam apenas 10% da água doce, e as empresas operadoras do serviço bombardeiam o consumidor com o discurso de “feche a torneira, não lave a calçada etc.”, quando são elas as responsáveis pela perda de mais de 40% de água tratada em vazamentos, por falta de manutenção e de investimento nos sistemas. Acresce-se a isso, o poder público impotente diante dos empobrecidos rios carreadores de esgotos e lixos. E, finalmente, convivemos com a irresponsabilidade do cidadão, consumista desenfreado de produtos industrializados onde há milhões de litros de água embutidos, gerando uma quantidade enorme de lixo repleto de toxinas que matam as águas.

Nada disso é novidade para ninguém; temos muita informação, mas não temos consciência. Consciência não é preocupação, é ação, é intervenção, é transformação de atitudes cotidianas que fazem toda a diferença para a natureza e para a sociedade humana.

 

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