Brincar é coisa séria

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Sobre a autora: Paula Melgaço é sócia-fundadora da Clínica Base, graduada em Psicologia pela UFMG, especialista em Relações Internacionais, especialista em Psicanálise com Crianças e Adolescentes pela PUC-MG e mestranda em Psicologia na PUC-MG. Referência da Clínica Base em projetos relacionados à adolescência e à tecnologia/mundo virtual. www.clinicabase.com 

A charge de Armadinho retrata de forma simples a rotina de nossas crianças: língua estrangeira, música, futebol estão entre as atividades que preenchem seus dias, ocupando, inclusive, seu tempo precioso que deveria ser dedicado a atividades lúcidas e a brincadeiras.

Numa época em que a produtividade e o tempo são tidos como os bens mais preciosos, o brincar se torna algo pouco importante e até desnecessário, mesmo para as crianças que são criadas, desde cedo, para serem adultos sérios e responsáveis. Brincar e curtir o tempo livre, nem pensar. Quem nunca se sentiu culpado por ficar de pernas pro ar em casa ou por tirar a tarde para se divertir com sua família e amigos sem se preocupar com o trabalho e com as diversas tarefas que lhes são atribuídas?

Mas, será que brincar é um desperdício de tempo e algo sem propósito? Não é o que nos mostram os especialistas que participam do belo documentário “Tarja Branca”, dirigido por Cacau Rhoden. Tive o prazer de ir ao lançamento desta bela produção que ressalta, através das tradições culturais brasileiras, a importância do brincar na vida de todos nós.

Para as crianças o momento da brincadeira é sagrado, pois além da diversão, é um momento em que podem expressar sua criatividade, inventar soluções para seus problemas e desenvolver habilidades de convívio social.

Vários estudiosos da infância escreveram sobre a importância do brincar. Para alguns, como Vygotsky, a brincadeira é uma reprodução das relações sociais, a criança apenas repete o que vê do meio em que vive. Para outros, como Winnicott, a brincadeira não é apenas uma reprodução dos costumes, mas também, uma forma de dizer dos sentimentos mais íntimos, que não poderiam ser ditos de outra forma, que não em meio à brincadeira e através da atividade lúdica.

Assim, muitas vezes, ao repreender os pequenos enquanto estão brincando, interrompemos processos importantes de elaboração de ideias e sentimentos e transmitimos a eles que a brincadeira é algo não tão importante para seu desenvolvimento como suas outras atividades diárias. Com isso, esperamos que quanto mais cursos e conhecimento as crianças tenham, mais capacitadas e bem sucedidas elas serão no futuro. No entanto, não seria o brincar a base desse processo, o início da formação de um ser humano capaz de conviver bem socialmente, de conseguir encontrar saídas para suas questões, de escolher uma profissão que lhe satisfaça e o mais importante… de ser feliz?