Quando o lixo deixará de ser invisível?

Cenas de um dia sem coleta de resíduos em Belo Horizonte: o lixo nas calçadas preocupa, mas a indiferença e a falta de consciência de quem passa são ainda mais preocupantes

O que o lixo fala de cada um de nós? Quando olhamos atentamente para o volume de resíduos de nossa casa podemos perceber a relação que temos com o que o planeta nos disponibiliza. Usamos e descartamos sem nos preocupar com o destino dos resíduos porque contamos com o serviço de coleta domiciliar urbana que leva para longe de nossos olhos os restos do nosso consumo.

Sobre a situação do lixo em Belo Horizonte, os números apresentados na matéria do Portal do Jornal Estado de Minas em 27/03/2014 preocupam: “Enquanto a população da cidade aumentou 1,8% em seis anos, a quantidade de detritos na capital explodiu: cresceu a velocidade 12 vezes maior, com aumento de 23,1% no mesmo período – de 578,9 mil toneladas para 712,8 mil toneladas/ano. Apesar disso, o Plano Municipal de Resíduos Sólidos, que deveria traçar o diagnóstico da situação e apontar caminhos para tratar os dejetos, sequer começou a ser elaborado. Sem esse documento, que deveria estar pronto há dois anos, a prefeitura não pode nem solicitar recursos estaduais ou federais para a área.”

A expansão do consumo gera cada vez mais resíduos fazendo aumentar a bola de neve que é o problema do lixo nos centros urbanos. Se reduzir o consumo, que seria o primeiro dos Rs, não tem sido a opção da maioria, vamos ter que reforçar o terceiro R, da reciclagem. Mas em Belo Horizonte, dos cerca de 2,5 milhões de habitantes, apenas 375 mil são atendidos pelo serviço. E mesmo nos bairros que possuem a coleta, boa parte dos moradores não faz a sua parte e nem separa os resíduos corretamente. Uma questão de cidadania, educação ambiental e educação para o consumo.

No mês que comemoramos o Dia Mundial do Meio Ambiente, vale lembrar das 36 horas que Belo Horizonte ficou sem coleta se lixo, no início do mês de maio, devido à paralisação da coleta domiciliar de lixo. Os funcionários terceirizados da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU), que coletam os resíduos na cidade, pararam suas atividades reivindicando merecido reajuste salarial.

Pilhas de sacos de lixo tomaram as calçadas da capital mineira, as ruas ficaram sujas e o visual da cidade incomodava. O trabalho dos garis e lixeiros, invisível no dia a dia, foi lembrado pela população obrigada a conviver com o mau odor e outros inconvenientes. Mas será que o desconforto gerado pela presença do lixo nas portas das residências e estabelecimentos comerciais desperta nas pessoas a consciência dos impactos ambientais e também humanos dos resíduos que geramos diariamente? Um bom momento para repensarmos o difícil trabalho dos profissionais da limpeza urbana que levam para longe o lixo que nos pertence, que deveria ser também nossa responsabilidade e é fruto do nosso consumismo. Também podemos nos perguntar: por que geramos tanto lixo? Pensamos em tudo que será descartado quando vamos ao supermercado ou à feira? Vale também refletir sobre a coleta seletiva que, se expandida, poderia reduzir em muito o volume de resíduos que segue para os aterros sanitários, além de gerar renda para muitas pessoas.

Uma outra forma de lidarmos com o lixo depende de uma mudança de pensamento e de atitude. Com os atuais padrões de consumo, o problema do lixo torna-se cada dia mais complexo. Eu me sinto responsável pelo lixo que produzo? Por uma cidade melhor precisamos de remuneração e condições de trabalho dignas para os garis e lixeiros, menos geração de resíduos, mais reutilização, ampliação da coleta seletiva, engajamento da população e transformação de resíduos em matéria-prima. Tudo junto e coordenado, muitas ações para um fim comum que é a melhoria das condições socioambientais das cidades.