Do consumo consciente à compulsão por compras

Sobre a autora: Marina Otoni é sócia-fundadora da Clínica Base, graduada em Psicologia pela PUC-MG, especialista em Teoria Psicanalítica pela UFMG e mestranda em psicologia pela UFMG. Referência na Clínica Base em projetos relacionados à mulher focando temas como a maternidade e o feminino. www.clinicabase.com

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O consumo é um tema que tem instigado a minha curiosidade e me levado a ler alguns livros de profissionais renomados que se propõem a identificar os fatores que levam algumas pessoas a consumir os objetos ofertados pelo mercado de forma irresponsável. Sou psicóloga clínica e há vários anos acolho em meu consultório pacientes em busca de apoio para lidar com as dificuldades e conflitos vivenciados cotidianamente nos diferentes âmbitos da sua vida.  Nos últimos anos, fiquei surpresa ao constatar que vem aumentando o número de pacientes que chegam nos consultórios dos psicólogos e psiquiatras profundamente angustiados com sua situação financeira. Quando começam a buscar a origem do problema, descobrem perplexos que suas dívidas foram geradas pelo consumo desenfreado e irresponsável de uma quantidade absurda de produtos inúteis que eles compraram no impulso, sem avaliar a real necessidade de consumi-los.  Ao tomar consciência disso, juram que só vão comprar produtos de extrema necessidade até quitarem todas as dívidas, promessas que quase nunca são cumpridas. Mesmo consciente das suas dívidas e da gravidade da situação, os pacientes continuam comprando, o que gera neles uma angústia profunda que eles tentam solucionar comprando mais, ficando, assim, aprisionados em um círculo vicioso.

Vivemos, hoje, em uma sociedade que estimula o consumo, modificando de forma significativa a relação das pessoas com seu trabalho, com sua família e com seus semelhantes. Se no passado elas encontravam no trabalho ascético e na renúncia e afastamento de todas as formas de prazer um sentido para a sua existência e experiências cotidianas, na atualidade, elas encontram esse sentido na busca incessante pelo prazer e formas de satisfazer as suas necessidades, afetivas e materiais, através do consumo dos objetos ofertados pelo mercado. Por isso, o consumo faz parte do cotidiano das pessoas. Mas, apesar de ser uma prática comum e corriqueira, é importante diferenciar o consumo saudável, consciente e equilibrado do consumo que pode levar ao endividamento e adoecimento psíquico.

Ana Beatriz Barbosa Silva, psiquiatra e referência nacional no tratamento dos transtornos mentais, ressalta que o bom consumidor é aquele que satisfaz as suas necessidades essenciais, permite-se a prazeres eventuais e, com um mínimo de planejamento, ainda consegue, dentro de suas possibilidades, poupar algum dinheiro para os tempos mais difíceis. O que nos dias de hoje não representa uma tarefa fácil.

Somos bombardeados com propagandas a todo momento. Seduzidos pelas belas vitrines, aromas personalizados nas lojas, vendedores educados e treinados para despertar desejos, anúncios de revistas e televisão acabamos adquirindo impulsivamente alguns produtos que, na realidade, não pretendíamos comprar. Quem nunca foi ao shopping com o objetivo de assistir um filme e acabou comprando dois pares de sapato no impulso? Sem avaliar conscientemente a real necessidade dessa compra. Para Ana Beatriz, as compras impulsivas podem não gerar grandes transtornos às pessoas quando são eventuais e não comprometem o orçamento, ainda que o dinheiro gasto poderia ter seu valor mais bem empregado. O problema é quando essas compras impulsivas e eventuais se tornam frequentes a ponto da pessoa apresentar um padrão repetitivo de compras impulsivas, podendo, então, ser identificada como um comprador excessivo ou abusivo.

Para caracterizar esse tipo de comprador, Ana Beatriz compara a compulsão por compras a outras formas de dependência ou vício. Ao fazê-lo, ela descreve o comprador compulsivo como aquele indivíduo que tem a mente dominada por pensamentos repetitivos relacionados à necessidade de adquirir determinado tipo de produto ou mercadoria. Esses pensamentos se tornam obsessivos e o ato de comprar adquire um caráter de urgência que tem como objetivo aliviar o mal-estar gerado por eles. A presença desses pensamentos é, portanto, a condição essencial para que o diagnóstico de compulsão por compras seja realizado e também para que o comprador compulsivo busque ajuda, antes que a doença evolua, comprometendo a sua vida profissional, social e familiar.

 

Fonte:

Ana Beatriz Barbosa e Silva. Mentes Consumistas: do consumo à compulsão por compras. São Paulo: Globo, 2014.