“A gente era obrigado a ser feliz”

Sobre a autora: Luiza Pinheiro é sócia da Clínica Base, graduada em Pedagogia pela UFMG, Especialista em Psicanálise com Crianças e Adolescentes pela PUC-MG, Especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional pela UEMG, e Mestranda em Psicologia pela UFMG. Referência da Clínica Base em projetos relacionados à infância. www.clinicabase.com.

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Há algum tempo me peguei curiosa lendo um texto intitulado “O professor de Harvard que ensina a ser feliz”. Logo no início o texto fala que mais de 1000 alunos da universidade se inscreveram na aula do professor que ensina meios para alcançar a realização pessoal e profissional.

Tenho pensado que hoje as pessoas são muito dependentes, não conseguem definir sozinhas nem o que fazer para serem felizes. Parece que para tudo precisamos seguir um padrão, ter alguém que corrobore com cada passo que tomamos.

Para ser feliz você precisa localizar seu desejo, as coisas que você mais ama fazer, o que te deixa realizado, e arrumar meios de fazê-las. Por que deveríamos precisar de alguém que nos ensinasse como fazer isso? Parece bastante absurdo, no entanto, eu mesma fiquei curiosa para ler o texto e provavelmente me matricularia na disciplina desse professor para ouvir o que ele tem a dizer. O trabalho que ele realiza é muito interessante e bem elaborado. A reflexão que quero trazer com esse texto é sobre os imperativos sociais que muitas vezes nos atropelam em nossas escolhas.

A felicidade hoje é um valor muito forte. O que os jovens esperam do futuro não é só ter dinheiro ou construir uma família, como antigamente, agora o ideal de vida é ser feliz.

Tudo o que representa um valor para a sociedade parece carregar uma obrigatoriedade. Se é um determinado tipo de carro as pessoas se sentem obrigadas a ter aquele carro, e se é a felicidade as pessoas se sentem obrigadas a ser felizes O TEMPO INTEIRO (e ainda mostrar toda essa “felicidade” em fotos na internet). Será que ser feliz está mais difícil hoje? O fato de ser feliz se tornar uma obrigação e uma preocupação não estraga tudo?

A música “João e Maria” de Chico Buarque traz a frase que dá título a esse texto. Na canção a obrigação em ser feliz ganha outra conotação, é uma obrigação no sentido de uma decisão pessoal, de uma tomada de posição na vida e escolha de atitudes que levem à felicidade: “e pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz”. A atual imposição social para que sejamos felizes, ou pelo menos para que pareçamos felizes, não se refere a posições pessoais, não é a lei individual de cada um, e sim uma lei social.

Os imperativos sociais acabam nos envolvendo e passamos a responder a eles, muitas vezes sem perceber. É necessário pensar sempre sobre nossas escolhas e nosso modo de vida. Por que, em meio a todas as obrigações diárias, deveríamos nos obrigar, também, a ser felizes e provar para as outras pessoas que o somos?