Reagindo à sociedade imediatista

Sobre a autora: Luiza Pinheiro é sócia da Clínica Base, graduada em Pedagogia pela UFMG, Especialista em Psicanálise com Crianças e Adolescentes pela PUC-MG, Especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional pela UEMG, e Mestranda em Psicologia pela UFMG. Referência da Clínica Base em projetos relacionados à infância. www.clinicabase.com.

foto consumismo infantil

Hoje a tecnologia tem grande participação em nosso modo de vida. Trabalho e lazer envolvem aparatos tecnológicos. E a principal característica das tecnologias digitais é a facilidade, a praticidade para fazer as coisas, para encontrar informações, etc. Os gadgets nos colocam tudo à mão e habituados a isso, esperamos que todas as outras coisas da vida aconteçam com a mesma facilidade, mas nem sempre é assim.

Devido a essa maneira como nos acostumamos a nos relacionar e a lidar com as coisas, vivemos em um regime guiado pelo imediatismo. Tudo tem que ser “pra já”, mas de preferência, “pra ontem”. O tempo de trabalhar para conseguir o que deseja e o tempo da espera não são mais valorizados, e muitas vezes nós não aceitamos esperar. Nossas crianças, que fazem birra quando não têm sua vontade atendida, são a prova disso.

Claro que a birra já existia antes da sociedade ser configurada da forma como está hoje, mas a situação atual é mais grave. As crianças não são ensinadas a esperar, pelo contrário. São ensinadas que tudo é possível, que os pais farão até o impossível pelo bem-estar delas e para agradá-las, e que elas podem ter o que quiserem no momento que quiserem. Isso faz com que muitas delas não conheçam o sentimento de fracasso, de falha, de falta. E quando são obrigadas a lidar com isso – porque todos somos, em algum momento da vida – não sabem como fazê-lo.

A mídia publicitária sabe bem como manipular essa urgência que sentimos hoje, principalmente quando se trata de vender para as crianças. É importante estabelecer limites para os filhos nessas horas. Mesmo que você possa comprar o desejo de consumo do seu filho, pondere se ele já não ganhou presentes demais naquele ano, se ele precisa realmente daquele brinquedo, ou ainda, mesmo que você tenha a intenção de comprar, faça-o esperar alguns meses. Somente vivenciando os sentimentos nós podemos aprender a lidar com eles. A criança deve ter contato com todos os tipos de sentimentos ao longo do seu desenvolvimento para aprender a reconhecê-los e a controlá-los. Uma pessoa que se conhece bem e sabe lidar com todos os sentimentos é uma pessoa mais segura, mais centrada e mais feliz.

Não conseguiremos evitar que nossos filhos vivenciem a frustração e outros sentimentos difíceis a vida inteira. Portanto, é melhor que eles aprendam a lidar com isso ainda na infância, conosco ao seu lado para dar suporte e acompanhá-los nesse processo importantíssimo de amadurecimento.

 

Imagem: internet

Publicado originalmente no site Consciência e Consumo.