A mulher e o consumo

O consumo costuma ser usado como remédio para problemas existenciais

O consumo costuma ser usado como remédio para problemas existenciais

Sobre a autora: Marina Otoni é sócia-fundadora da Clínica Base, graduada em Psicologia pela PUC-MG, especialista em psicanálise pela UFMG e mestranda em psicologia pela UFMG. Referência na Clínica Base em projetos relacionados à mulher focando temas como a maternidade e o feminino. www.clinicabase.com

O consumo desenfreado dos objetos ofertados pelo mercado leva muitas pessoas ao endividamento já que elas vão além do que a sua realidade financeira permite. A situação tem preocupado não só os economistas, que temem que o aumento significativo do número de inadimplentes agrave a crise financeira do país. A preocupação é também de profissionais de outras áreas que estudam o comportamento humano e que procuram identificar quais são os fatores que levam uma pessoa ao consumo.

Para identificá-los, é necessário considerar as mudanças que ocorreram na sociedade nas últimas décadas e que modificaram, de forma significativa, os discursos, os valores e os ideais que orientavam o indivíduo no mundo.

Se no passado havia da parte das pessoas uma preocupação em trabalhar para acumular bens e conquistar uma estabilidade financeira, hoje, não há mais uma preocupação com o futuro, mas uma tendência a viver apenas o presente. As pessoas buscam satisfazer todas as suas necessidades e desejos de forma imediata, ignorando, muitas vezes, a realidade.

Necessidades e desejos quase sempre se relacionam com a infinidade de produtos ofertados pelo mercado. Isso porque o produto cria naquele que o consome a ilusão de que consumindo vai conseguir solucionar os problemas vivenciados no cotidiano.

Por isso, é comum escutar de alguns grupos particularmente suscetíveis ao consumo, como as mulheres, que o consumismo é uma das formas que elas encontram para apaziguar a angústia mobilizada por um determinado problema. No entanto, ao consumir tais produtos, logo elas sentem a necessidade de consumir mais. O alívio e a satisfação experimentados com a compra de um determinado bem rapidamente são substituídos pela angústia sentida anteriormente, aprisionando-a em um círculo vicioso que pode levá-la não só ao endividamento, mas também a se afastar cada vez mais dos problemas que motivaram tal comportamento.

Problemas que só vão se resolver se ela começar a refletir sobre o que a levou a consumir de forma desenfreada e irresponsável os produtos ofertados pelo mercado. Isso requer dela coragem para encarar seus problemas, construindo, assim, outras saídas menos danosas para solucionar suas questões internas.