Aumento da obesidade infantil preocupa

O aumento da obesidade infantil está relacionado a fatores como o consumo frequente de alimentos ricos em gordura e açúcar – Foto: montagem

Durante décadas o Brasil conviveu com a desnutrição infantil. Pesquisas recentes mostram como a má alimentação continua sendo um problema para meninos e meninas mas que agora se apresenta sob a forma de excesso de peso.

A obesidade infantil aumentou drasticamente entre 1989 e 2008/2009, segundo dados do último levantamento disponível das Pesquisas de Orçamentos Familiares, POF, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE. Nas crianças entre cinco e nove anos, o sobrepeso masculino aumentou 132% (passando de 15% para 34,8%). Nas meninas da mesma faixa etária, passou de 11,9% para 32%, um aumento de 169%. Já a obesidade subiu de 4,1% da população masculina com idade entre 5 e 9 anos para 16,6% (aumento de 305%). Já na população feminina da mesma faixa etária, os índices passaram de 2,4% para 11,8% (um acréscimo de 391%).

A nutricionista Cláudia Dias, que trabalha com alimentação infantil há mais de 18 anos, explica que as pesquisas mostram dados preocupantes. O aumento do peso nas crianças mostrado nas Pesquisas do IBGE é reflexo das tendências de consumo alimentar da população com a redução no consumo de alimentos básicos; aumento importante do consumo de alimentos com alto teor de gorduras saturadas, gorduras trans, sal, açúcar, sódio, corantes e o crescimento do tamanho das porções comercializadas.

O papel das escolas

Para Cláudia, a escola tem um papel importante para mudar esta realidade. Ela lembra da necessidade de uma parceria com a família pensando na alimentação feita em casa, nos alimentos enviados pelos pais, nos lanches oferecidos ou vendidos na escola e até mesmo no que é servido nas comemorações dentro do ambiente escolar. Para se trabalhar a alimentação dos alunos de uma forma integral e crítica é preciso discutir a fundo a pressão da publicidade e seus produtos com personagens e brindes.

A nutricionista reforça a importância de se controlar também o que é vendido na porta da escola, espaço que acaba sendo um prolongamento do espaço escolar, sem controle por parte do município por causa da ação dos ambulantes. “Por estarem tão próximos das crianças, estes alimentos acabam sendo muito consumidos na hora da entrada e da saída da aula”, enfatiza. Em tramitação na Câmara Municipal de Belo Horizonte, o Projeto de Lei 811/2013, que altera o Código de Posturas da cidade, pretende proibir o comércio de doces por ambulantes na porta de escolas públicas e privadas da capital mineira.

“A escola pode contribuir para reverter este quadro preocupante de obesidade e sobrepeso na infância com o desenvolvimento de projetos que favoreçam a adoção de hábitos saudáveis com a parceria entre as famílias, os educadores e os nutricionistas,” afirma.

Alimentação inadequada e excesso de peso podem provocar nas crianças problemas como hipertensão, diabetes, colesterol elevado, doenças cardiovasculares, sobrecarga das articulações, distúrbios do sono, entre outros. As crianças obesas têm 50% de chance de se tornarem adultos obesos enquanto que os adolescentes obesos têm 80% de chances de se tornarem adultos obesos.

Ela cita conceitos ultrapassados como: “é criança, pode comer de tudo”, “não gosta, então não precisa oferecer” ou “criança gordinha é saudável” que precisam ser substituídos por novos conceitos como: “é na infância que se formam os hábitos de vida, inclusive os alimentares” e “vale a pena investir na formação de bons hábitos alimentares dos indivíduos, desde a infância.”

Exemplo norte-americano

Nos Estados Unidos, estudo recente mostra que a obesidade diminuiu de forma significativa entre as crianças na última década, apesar de se manter alta no conjunto da população. Entre as crianças de dois a cinco anos, caiu quase pela metade o índice de obesidade, passando de 14% em 2002 para 8% em 2012, uma redução de 43%. Nos Estados Unidos, a primeira-dama Michelle Obama tem o combate à obesidade infantil como uma causa pessoal. Ela vem incentivando propostas como a análise do impacto dos impostos extras sobre a venda de alimentos pouco saudáveis, a inserção de informações nutricionais mais claras nos rótulos, uma lei para a melhoria da alimentação nas escolas, negociação com a Associação Nacional dos Restaurantes para criar cardápios especiais para crianças, e junto a uma grande rede varejista firmou acordo para a redução do preço de frutas e verduras e a diminuição da quantidade de gordura, sal e açúcar em seus produtos.

 

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